01 dezembro 2018

DESTAQUES DE 2018: WARREL DANE - "SHADOW WORK"

Por Julio Feriato

O falecimento do cantor Warrel Dane em dezembro de 2017 pegou muita gente de surpresa, mas nem tanto aos conhecidos que acompanharam de perto toda sua saga pelo Brasil desde que ele veio fazer uma turnê solo com músicos brasileiros, em 2014. Para quem não sabe, este extraordinário artista não estava muito bem de saúde há alguns anos e não tinha disciplina alguma em relação a isso; tanto que, os músicos que gravaram este disco já temiam que o pior pudesse acontecer hora ou outra. Mas, ninguém poderia prever que a tragédia fosse rolar justamente em meio às gravações de "Shadow Work"!

Além disso, as expectativas em torno deste trabalho eram muitas: primeiramente pela banda contar com músicos brasileiros e por ter sido inteiramente produzido e gravado em São Paulo-SP, com pré-produção à cargo de Roy Z. Por mais triste que seja, felizmente pelo menos metade do disco foi gravado e o resultado é uma verdadeira obra prima da música pesada com oito belas composições e também com uma das melhores performances já realizadas por Warrel Dane.

Fabio Carito (baixo), Thiago Oliveira (guitarra), Warrel Dane (voz), Johnny Moraes (guitarra) e Marcus Dotta (bateria)

O álbum abre com um belo clima oriental na introdução intitulada "Ethereal Blessing", seguida da portentosa "Madame Satan" (titulo inspirado numa tradicional casa noturna de São Paulo que possui o mesmo nome), cheia de riffs quebrados e pesadíssimos, com direito à vocal gutural em alguns momentos. De cara, não há como não lembrar do Nevermore da fase "This Godless Endeavor", um fato talvez proposital, visto que em algumas entrevistas o cantor deu a entender que "Shadow Work" seria uma tentativa de reconectar os antigos fãs à sua carreira solo. Se um dos objetivos era esse, posso afirmar que deu certo, pois a estrutura das músicas é bem parecida, inclusive o timbre das guitarras remetem bastante ao Nevermore.

Mas calma, não pensem que "Shadow Work" soa como uma pálida cópia das bandas anteriores de Dane, pois não é! A 'brasilidade' dos músicos é bem marcante devido aos a rifferama quebrada das músicas, característica que a dupla de guitarristas Thiago Oliveira e Johnny Moraes conseguiram explorar com maestria e afirmo que foram até além disso - um belo exemplo é a melodia final da música título, algo que grudou por dias na minha cabeça.

"Disconnection System" foi o primeiro single divulgado pela gravadora e confesso ter demorado para digerir por completo sua proposta, diferente, por exemplo, de "As Fast as the Others", que mantem o clima sombrio, mas com muito peso e sentimento. Segundo o guitarrista Thiago Oliveira, esta foi a música mais difícil de compor justamente por ela ter essa proposta mais comercial e melódica.

Mantendo sua tradição em realizar versões inusitadas de velhos clássicos, Dane desta vez escolheu o The Cure para homenagear ao regravar uma surpreendente versão para "The Hanging Garden"; e o resultado final é magnífico. A faixa seguinte, a balada "Rain", é talvez a música mais 'chiclete' de todas e afirmo isso no bom sentido. Ela conseguiu resgatar as raízes mais doom metal que o cantor nunca negou ter e na minha opinião é o grande destaque deste disco.

Para fechar com chave de ouro, temos a longa "Mother Is the Word for God", que começa com corais e uma bela melodia sinfônica, seguida de um violão acústico como apoio, para depois descambar em um trampo nervosíssimo de guitarras que perpetua até o fim.

O veredicto é que dá muito orgulho saber que "Shadow Work" foi um trampo concebido em nosso país, com ajuda de músicos brasileiros. O único "senão" fica por conta da sensação de "quero mais", pois sabe-se que o disco seria mais longo e que muitas músicas ficaram de fora devido ao falecimento do cantor. E, segundo me confidenciou um dos músicos, essas músicas eram justamente as mais legais. Por causa disso, dá até uma certa revolta contra o universo por ter levado embora um artista tão talentoso e característico como Warrel Dane antes dele ao menos terminar sua obra! Caramba universo, não dava para ter esperado só um pouquinho mais?!



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